Cada Passo Conta: Como o Movimento Transformou Minha Vida e Minha Prática

Mudei minha vida há dez anos. Começou de forma simples: pilates, caminhadas, academia. Movimentos pequenos, porém constantes, que abriram espaço para uma relação completamente diferente com meu corpo, minha mente e minhas escolhas diárias. Cinco anos depois desse início, encontrei a corrida e foi aí que tudo ganhou um sentido ainda mais profundo.

Então, há quase 6 anos corro, e nesse percurso descobri, de forma muito nítida, o impacto do movimento na saúde mental. A corrida me estabilizou. Não apenas no corpo, mas no humor, na ansiedade e, como consequência direta, na maneira como eu lidava com a compulsão alimentar.
O que começou como um recurso para atravessar momentos difíceis (comecei a correr na pandemia) se transformou em eixo de organização interna e clareza emocional.

Com o tempo, deixei o asfalto e encontrei no trail um espaço onde a verdade aparece inteira. A montanha não suaviza nada. Ela devolve exatamente o que entregamos. Ali, aprendi a sustentar desconfortos, a respirar em meio ao caos, a manter presença quando o corpo pede para desistir. Essa habilidade — criar conforto dentro do desconforto — é central também na clínica.
Na terapia, falamos sobre ampliar repertórios, tolerar emoções intensas, diferenciar impulso de necessidade. No trail, isso se pratica passo a passo.

Há mais de uma década trabalho com comportamento e transtornos alimentares, e vejo diariamente como a dificuldade de lidar com desconfortos intensifica a relação com a comida e com o corpo. O exercício, quando usado com consciência, se torna um recurso potente para reorganizar emoções, fortalecer limites internos e criar consistência real, aquela que não depende de motivação, mas de responsabilidade consigo mesma.

A minha vivência como corredora amadora não é um adendo à minha vida profissional. É uma lente que aprofunda o meu trabalho. Entendo, na prática, como sono, alimentação, estresse, rotina e disciplina impactam o comportamento alimentar e a estabilidade emocional. E isso me permite orientar meus pacientes com realismo, sensibilidade e método.

No consultório e nas redes sociais, auxilio pessoas a construírem uma vida possível, sustentável e coerente com seus objetivos: comendo de forma equilibrada, treinando com intenção e aprendendo a identificar o que é fome, o que é impulso e o que é tentativa de aliviar emoções difíceis.
O movimento não resolve tudo, mas potencializa quase tudo: clareza, ambição saudável, estabilidade, presença e capacidade de decisão.

Hoje, o que vivo nas trilhas se transforma em prática clínica. E o que ensino na terapia fortalece a forma como sigo correndo, respeitando ritmo, limites e escolhas.
A corrida me mostrou que cada passo importa. A psicologia me mostrou por quê.