A grama do vizinho é sempre mais verde?

Poucas pessoas sabem a origem da expressão “a grama do vizinho é sempre mais verde”. Em versões antigas do ditado, ainda ligadas a sociedades agrárias, dizia-se que “a colheita do campo alheio é sempre mais abundante”. Com o passar do tempo, a expressão passou a representar algo mais amplo: uma comparação ilusória, frequentemente associada à insatisfação com a própria realidade e à idealização das escolhas, conquistas e trajetórias dos outros.

Essa lógica da comparação permanente ajuda a explicar por que, muitas vezes, as pessoas nunca estão plenamente satisfeitas. Trago essa reflexão para o meu cotidiano profissional. Sou treinador de corrida e triatlo e estou prestes a completar dez anos prescrevendo treinamentos nessas modalidades. Grande parte da metodologia que utilizo foi construída a partir do estudo de autores clássicos e contemporâneos do treinamento esportivo, muitos deles treinadores e atletas consagrados, cujas contribuições fundamentam tanto a teoria quanto a prática da área.

Minha formação, no entanto, não se resume à leitura. Ao longo dos anos de graduação em Educação Física, contei com excelentes professores e com a convivência profissional de colegas que contribuíram de forma decisiva para minha construção como treinador. Ainda assim, isso nunca foi suficiente para eliminar inseguranças — algo comum a qualquer profissional em início de carreira. O aprendizado prático, especialmente quando envolve pessoas, é complexo e exige tempo, reflexão e humildade.

Desde cedo compreendi que a individualidade é o princípio central do treinamento. Cada atleta responde de forma distinta aos estímulos, possui histórico, rotina, limitações, expectativas e contextos próprios. Prescrever treinos individualizados não é um luxo metodológico, mas uma necessidade técnica.

Paradoxalmente, foi aí que começaram muitos dos conflitos.

Atletas comparavam planilhas, volumes, intensidades e resultados, sem considerar as diferenças fisiológicas, emocionais, morfológicas e contextuais entre si. O foco raramente estava na própria evolução, mas na “grama do colega ao lado”. Essa comparação tornou-se ainda mais problemática quando o olhar passou a se voltar para atletas amadores de elite ou, pior, para atletas profissionais.

Comparar-se a esse grupo ignora variáveis fundamentais: disponibilidade de tempo, histórico esportivo, suporte multidisciplinar e acompanhamento constante de uma equipe inteira — algo muito distante da realidade da maioria dos praticantes recreacionais. Ainda assim, muitos questionamentos exigiam explicações quase didáticas sobre por que determinados métodos funcionam em contextos de elite e não necessariamente em outros.

Há também uma idealização do mercado do treinamento personalizado. Vende-se a ideia de que métodos “exclusivos” ou valores elevados garantem resultados superiores. Na prática, os métodos utilizados são, em essência, os mesmos. O que muda é o nível de acompanhamento, a análise dos dados e a possibilidade de dedicar tempo integral a poucos atletas. Isso não invalida o trabalho de quem atua dessa forma, mas tampouco desqualifica treinadores que aplicam os mesmos princípios com grupos maiores e valores mais acessíveis.

Não se trata de discutir competência — minha ética profissional não permite esse tipo de julgamento. O espaço para estudo, aprimoramento e crescimento existe para todos. A questão central é outra: até que ponto a comparação constante não distorce nossa percepção da realidade?
No fim, vale a reflexão: a grama do vizinho é realmente mais verde — ou apenas parece assim porque olhamos menos para o nosso próprio solo?

  • Esse texto reflete apenas a ideia e opinião do autor.
  • Texto corrigido com a ajuda da Inteligência Artificial ChatGPT 5.2 no modo Thinking.